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Formas geométricas têm estrutura de linguagem?

Formas geométricas têm estrutura de linguagem
Formas geométricas têm estrutura de linguagem?

Você já parou para pensar em como o cérebro humano entende uma forma geométrica? Não é só uma questão de enxergar linhas e ângulos.

Uma pesquisa recente publicada no Journal of Experimental Psychology: General trouxe uma descoberta que muda como entendemos esse processo: representamos formas geométricas na mente do mesmo jeito que representamos frases de uma língua, ou seja, com uma estrutura hierárquica, organizada em partes que se encaixam dentro de outras partes.

Isso se chama “Linguagem do Pensamento” (ou Language of Thought). O cérebro busca padrões e estruturas em árvore (como os galhos de uma planta) para entender o espaço. É por isso que conseguimos criar e memorizar infinitas figuras a partir de poucas regras básicas. O aluno não decora a forma; ele “lê” a estrutura dela!

Vamos entender o que isso significa e como podemos usar isso para transformar a aula de matemática amanhã mesmo.

O conceito, de forma simples

Imagine que você vê um quadrado. Seu cérebro não guarda essa imagem como uma lista solta de quatro traços. Em vez disso, ele a organiza como um programa mental: “desenhe um traço, vire 90 graus, repita isso quatro vezes”. Essa “receita” é parecida com a estrutura de uma frase, que tem sujeito, verbo e objeto organizados em uma árvore sintática.

Os pesquisadores Barbu Revencu, Maxence Pajot e Stanislas Dehaene, do NeuroSpin (França), mostraram que essa organização não é apenas uma questão de economia de memória, é uma estrutura sintática de verdade.

Assim como uma mesma frase pode ter dois significados diferentes dependendo de como a gente a divide (“Vi o homem com o binóculo”. Será que eu usei o binóculo para ver o homem, ou será que o homem estava com o binóculo?), uma mesma forma geométrica pode ser interpretada de maneiras diferentes dependendo de como a gente a “monta” mentalmente.

E o mais impressionante: modelos de inteligência artificial, mesmo os mais avançados, não mostram esse mesmo padrão. Eles conseguem distinguir formas, mas não as representam com essa estrutura hierárquica que os humanos usam naturalmente.

Estudo científico sobre o tema

O estudo de Revencu e colaboradores testou a hipótese de que as formas geométricas são representadas como árvores sintáticas por meio de três experimentos com mais de 130 participantes adultos. Cada experimento usou um teste diferente, inspirado diretamente na linguística.

Principais tópicos

Experimento 1 — Ambiguidade estrutural:

Os pesquisadores mostraram animações que desenhavam uma mesma forma de dois modos diferentes. Em um modo, a forma era gerada pela repetição de uma subforma; no outro, pela concatenação de duas subformas diferentes. Depois, pediam que os participantes reconhecessem a forma em meio a outras.

O resultado: a mesma forma era mais facilmente reconhecida quando a cor do alvo combinava com a estrutura da animação que o participante tinha acabado de ver. Ou seja, a animação induziu uma interpretação estrutural específica na mente do participante.

Experimento 2 — Facilitação por subárvores:

Os participantes viam uma forma grande e, em seguida, uma pequena parte dela. Tinham que decidir se aquela parte pertencia à forma original.

O resultado: as partes que correspondiam a um “galho” inteiro da árvore mental eram reconhecidas com muito mais facilidade do que partes que pegavam pedaços de galhos diferentes. Isso mostra que nossa mente organiza a forma em blocos coerentes.

Experimento 3 — Profundidade sintática:

Os participantes viam uma forma e, depois, uma versão dela que tinha sido cortada em dois pedaços. Tinham que decidir se os dois pedaços podiam ser reorganizados para formar a forma original.

O resultado: quanto mais alto no “galho” da árvore era feito o corte (ou seja, quanto mais perto do topo da hierarquia), mais fácil era para os participantes reconhecerem que os pedaços se encaixavam. Cada nível de profundidade na árvore adicionava um custo mental constante, exatamente como acontece quando processamos frases com estruturas mais complexas.

Experimento sobre como a mente organiza formas geométricas
Como a mente organiza formas geométricas.

Estratégias práticas para aplicar em sala de aula amanhã

Que tal colocar a mão na massa? Baseado nos três experimentos do artigo, separei quatro atividades rápidas, que não exigem material sofisticado (apenas papel, lápis e tesoura) e podem ser encaixadas em uma aula de 50 minutos. O objetivo é forçar os alunos a perceberem a hierarquia escondida dentro das figuras.

1. A mesma figura, duas montagens (inspirado no Exp. 1)

Desenhe uma escadinha com 6 segmentos no quadro. Divida a turma em dois grupos.

  • Grupo 1: Mostre a figura sendo feita com partes diferentes (parte A + parte B). Por exemplo, desenhe primeiro um degrau, depois outro degrau diferente, depois complete com um terceiro pedaço.
  • Grupo 2: Mostre a mesma figura sendo feita repetindo uma única parte. Por exemplo, mostre um “L” e diga: “Este L se repete três vezes para formar a escadinha”. Desenhe o L sendo repetido lado a lado.

Peça que todos desenhem a figura de memória. O Grupo 2 provavelmente desenhará mais rápido e com menos erros, pois o cérebro processa padrões repetitivos com mais facilidade. Pergunte: “Qual foi sua estratégia para lembrar?”. Isso mostra que a forma como apresentamos a figura muda o jeito que o cérebro guarda a informação.

2. Caça às subárvores (inspirado no Exp. 2)

Desenhe um “M” com 4 traços no quadro. Separe a turma em duplas.

Prepare cartões com pedaços da figura:

  • Cartão A (bloco completo): mostre os dois traços da esquerda juntos (um “V” deitado). Esse pedaço forma uma unidade lógica dentro do “M”.
  • Cartão B (misturado): mostre o último traço da esquerda e o primeiro do meio juntos. Esse pedaço pega partes de blocos diferentes.

Peça que os alunos digam se aquele pedaço está dentro da figura principal. Eles vão identificar muito mais rápido os pedaços que formam um bloco completo. Use isso para ensinar que dividir figuras em “famílias” de segmentos ajuda a calcular perímetro e área com mais facilidade.

3. Cortar e remontar em alturas diferentes (inspirado no Exp. 3)

Desenhe um quadrado dividido em 4 quadrantes iguais. Recorte dois exemplos:

  • Caso A (corte no topo): Corte o quadrado exatamente no meio, separando os dois lados (2 retângulos). Esse corte respeita a estrutura da figura.
  • Caso B (corte profundo): Corte o quadrado separando apenas um dos quatro quadrantes (1 quadradinho + o resto). Esse corte quebra a estrutura.

Distribua os recortes para duplas e peça que remontem a figura, cronometrando. Eles vão perceber que o Caso A é mais fácil porque o corte respeita a estrutura da figura. Isso ensina que existem “pontos de quebra” melhores para dividir uma figura, ajudando a entender frações e áreas.

4. Desafio do programa mínimo

Mostre um hexágono (figura com 6 lados) feito de palitos no quadro. Desafie os alunos a escreverem um “programa” com instruções curtas para que um robô desenhe aquela figura. Quem escrever com o menor número de instruções vence.

Exemplo prático: em vez de “desenhe palito 1, vire, desenhe palito 2, vire…” o aluno vai escrever: “desenhe um palito, vire 60 graus; repita 6 vezes”. Essa atividade desenvolve o pensamento computacional e mostra na prática como o cérebro comprime informações.

Resumo e dica final

O que esse estudo nos ensina, na prática, é que o cérebro humano não enxerga formas geométricas como uma lista de características, mas como uma história organizada em capítulos e parágrafos. Essa capacidade parece ser exclusivamente humana. Pelo menos por enquanto, os melhores modelos de IA não a replicam.

Para você, professor, fica um convite: experimente as atividades acima. Você vai notar que os alunos que conseguem “enxergar” a hierarquia (as repetições e os grandes blocos) aprendem geometria com muito mais facilidade.

Quando um aluno está com dificuldade em uma figura, pergunte:

“Que parte dessa figura se repete?” ou “Como você dividiria essa figura em dois pedaços para facilitar o cálculo?”.

Isso não só desenvolve o pensamento geométrico, mas também exercita uma habilidade cognitiva fundamental: organizar informações em estruturas hierárquicas, a mesma que usamos para aprender línguas, programar e resolver problemas complexos.

E se quiser aprofundar, o artigo original está disponível em acesso aberto. Vale a pena conferir e adaptar para sua realidade!

Profª Marina Vargas
Escrito por

Profª Marina Vargas

Marina Vargas é Doutora e Mestre em Métodos Numéricos em Engenharia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com pós-doutorado na mesma instituição, onde também atuou como professora substituta em diversas ocasiões. Sua formação acadêmica inclui Especialização em Educação Matemática e Graduação em Matemática pela Universidade Paranaense (UNIPAR).

Atualmente, além de integrar o corpo docente da UFPR como professora substituta no Departamento de Matemática, atua como mediadora nos aulões da Faculdade São Luís. É também conteudista e professora formadora no curso de Licenciatura em Computação da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e colabora com a Escola de Exatas do Grupo Uninter. Para 2026, está confirmada sua participação em eventos que articulam neurociência e educação, como o workshop na Semana de Contabilidade da UFPR e a palestra de abertura do segundo semestre letivo no curso técnico em Petróleo e Gás. Um convite que carrega um significado especial, pois Marina teve a oportunidade de estar como professora substituta nas turmas de ensino médio técnico em Petróleo e Gás da UFPR em 2022 e novamente em 2025, fechando esse ciclo com a palestra em 2026, que marca seu retorno à sala de aula na educação básica com muito carinho.

Paralelamente, desenvolve materiais educacionais e é revisora técnica para instituições e empresas como IESDE, DTCOM e KROTON, abrangendo conteúdos nas áreas de Exatas, Educação e Tecnologia. Com mais de 28 obras publicadas, incluindo livros sobre Educação Financeira, Neurociência e Aprendizagem da Matemática, Pensamento Computacional, Geometria Analítica, Cálculo Numérico e Teoria dos Jogos, é reconhecida pela produção de materiais didáticos e científicos de qualidade. É proprietária da NUMERICALABS, empresa de consultoria e desenvolvimento de conteúdo educacional para todos os níveis de ensino. Suas áreas de especialização – Educação Matemática, Tecnologia Educacional e Pensamento Computacional – são enriquecidas por abordagens baseadas em neurociência e metodologias ativas, refletindo seu compromisso com a inovação e a qualidade na educação.

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