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Educação Inclusiva

Educação bilíngue de surdos: o que a nova política pede do professor em sala

Professora ensina sobre plantas com apoio de intérprete de Libras a alunos, incluindo um menino com implante coclear.

Você já recebeu um aluno surdo na turma e percebeu que, mesmo com o intérprete ao lado, ele parecia estar sempre um passo atrás da aula? Na verdade, essa cena é mais comum do que parece, e ela ganhou um novo peso em 2026. No último dia 26 de setembro, Dia Nacional do Surdo, o Ministério da Educação reforçou a Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos, instituída pela Portaria MEC nº 588, de julho deste ano. A mensagem para quem está na sala de aula é clara: a Libras deixa de ser um apoio e passa a ser reconhecida como primeira língua do estudante surdo, com o português escrito como segunda língua.

Veja o que muda na prática, o que diz a ciência e o que fazer já na próxima aula.

O que diz a nova política de educação bilíngue

A política atende estudantes surdos, surdocegos, com deficiência auditiva e com deficiências associadas. Nesse sentido, o objetivo declarado é ampliar o acesso, a permanência e a aprendizagem desses alunos. Segundo os dados divulgados pelo MEC na Semana do Surdo, o país tem hoje 119 escolas e 690 classes bilíngues, sendo 94 escolas e 536 classes na rede pública. Além disso, a formação de educadores na área cresceu 74% entre 2024 e 2025.

Os números mostram avanço, mas também revelam o tamanho do desafio. Afinal, a maior parte dos estudantes surdos brasileiros continua matriculada em escolas comuns, em turmas nas quais o professor regente, muitas vezes, nunca teve formação específica. Por isso, é justamente nessas salas que a política precisa sair do papel.

Libras como primeira língua: o que isso significa

Dizer que a Libras é a primeira língua não é um detalhe técnico. Pelo contrário, significa que o conteúdo precisa chegar ao aluno em Libras e que o português escrito deve ser ensinado com metodologia de segunda língua, como se ensina uma língua estrangeira. Na prática, cobrar do aluno surdo a mesma produção textual de um ouvinte, sem essa mediação, é avaliar a língua errada.

O que a ciência diz sobre a língua de sinais desde cedo

Durante décadas, muitas famílias e escolas foram orientadas a evitar a língua de sinais, com o argumento de que ela atrapalharia a fala. No entanto, a pesquisa mostra o contrário. Por exemplo, um estudo publicado no Harm Reduction Journal por Humphries e colaboradores alerta para o risco de privação linguística quando a criança surda fica sem acesso pleno a uma língua nos primeiros anos de vida.

Os autores explicam que o cérebro tem uma janela sensível para a aquisição da linguagem. Quando a criança não tem acesso a uma língua que consegue perceber por completo, o prejuízo vai além da comunicação: afeta a memória, a organização do pensamento, a leitura e a vida emocional. Por isso, a recomendação é garantir a língua de sinais desde cedo, sem abrir mão de outras abordagens. Ou seja, a Libras não compete com o português. Em vez disso, ela é a base que torna possível aprender o português.

Educadora conta história com gestos para crianças em roda de leitura, ao lado de um livro ilustrado com uma onça.

Portanto para o professor, essa evidência muda a pergunta. Em vez de “como faço meu aluno surdo acompanhar a aula dos ouvintes?”, a questão passa a ser “como organizo minha aula para que ela funcione em Libras e também em português?”.

O papel do professor regente na sala bilíngue

Um equívoco frequente é imaginar que a inclusão do aluno surdo é responsabilidade exclusiva do intérprete. O intérprete educacional traduz, mas quem planeja, ensina e avalia é o professor. Sem planejamento conjunto, o intérprete recebe o conteúdo na hora, traduz no improviso e o aluno aprende pela metade.

A lógica é parecida com a do trabalho em dupla que já discutimos no texto sobre coensino na sala de aula: quando dois profissionais planejam juntos, a turma inteira ganha. Com o intérprete, vale o mesmo princípio.

Cinco práticas que você pode aplicar já

  • Envie o planejamento com antecedência. Compartilhe com o intérprete os textos, os vídeos e o vocabulário técnico da aula. Isso porque termos como “fotossíntese” ou “fração equivalente” podem não ter sinal conhecido e precisam ser combinados antes.
  • Aposte na pedagogia visual. Mapas conceituais, imagens, linhas do tempo e demonstrações concretas favorecem o aluno surdo, que aprende por uma lógica visuoespacial, e ajudam também os ouvintes.
  • Organize o espaço da sala. O aluno precisa ver ao mesmo tempo o professor, o quadro e o intérprete. Além disso, evite falar de costas enquanto escreve e deixe pausas para a tradução acompanhar.
  • Legende e descreva os vídeos. Vídeo sem legenda ou sem janela de Libras exclui. Antes de exibir, verifique se o recurso está acessível.
  • Avalie o conteúdo, não só o português. Permita respostas em Libras, com registro em vídeo ou mediado pelo intérprete, e corrija o texto escrito considerando que se trata de uma segunda língua.

Português como segunda língua: por onde começar

Ensinar português escrito ao aluno surdo exige outro ponto de partida. A Libras tem estrutura própria, com uma organização de frase diferente da do português. Por isso, é comum o aluno escrever frases sem artigos, preposições ou conjugação verbal. Contudo, isso não é “erro de alfabetização”, é marca de interlíngua, o caminho natural de quem está aprendendo uma segunda língua.

Algumas estratégias ajudam bastante:

  • partir sempre do conteúdo já compreendido em Libras antes de propor a leitura;
  • trabalhar com textos curtos e significativos, apoiados em imagens;
  • construir glossários bilíngues com a turma, com o sinal, a palavra e a imagem;
  • valorizar a reescrita orientada, em vez de apenas marcar erros em vermelho.

Quando o professor entende essa lógica, a correção deixa de ser punitiva e vira uma ferramenta de ensino.

Cultura surda e pertencimento na escola

A política bilíngue também fala de identidade. De fato, o estudante surdo que convive com pares surdos, adultos fluentes em Libras e referências da cultura surda tende a desenvolver mais autoestima e participação. Por outro lado, em escolas comuns, o professor pode favorecer esse pertencimento com gestos simples: ensinar sinais básicos para a turma, convidar surdos da comunidade para rodas de conversa e incluir literatura surda nas atividades de leitura.

O Setembro Azul, mês de visibilidade da comunidade surda, é um bom gancho, mas o trabalho precisa durar o ano todo. Inclusão que aparece só em data comemorativa não muda a trajetória escolar de ninguém.

Um campo de atuação em expansão

A nova política tende a aumentar a procura por professores para classes bilíngues, salas de recursos e Atendimento Educacional Especializado. Consequentemente, para o docente da educação básica, é uma oportunidade real de especialização e crescimento na carreira.

Conclusão

A Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos coloca o professor no centro da inclusão. A ciência mostra que o acesso precoce à língua de sinais protege o desenvolvimento da criança, e a escola tem um papel decisivo nisso. Dessa forma, planejar com o intérprete, usar recursos visuais, ensinar o português como segunda língua e valorizar a cultura surda são passos que transformam a experiência escolar do aluno surdo.

Se você quer se preparar para atuar com segurança nesse cenário, conheça a Pós-graduação em Educação Especial com Ênfase em Educação Bilíngue para Surdos da Faculdade São Luís. O curso aprofunda Libras, pedagogia visual, ensino de português como segunda língua e o trabalho colaborativo com intérpretes, com toda a flexibilidade do EAD para quem já está em sala de aula.

Perguntas frequentes

O que é educação bilíngue de surdos?

É a proposta em que a Libras é a primeira língua de instrução do estudante surdo e o português escrito é ensinado como segunda língua.

O intérprete de Libras substitui o professor?

Não. O intérprete faz a mediação linguística, mas o planejamento, o ensino e a avaliação continuam sendo responsabilidade do professor regente.

Por que o aluno surdo escreve diferente dos ouvintes?

Porque a Libras tem estrutura própria. As diferenças na escrita fazem parte do processo de aprender o português como segunda língua.

Como incluir o aluno surdo sem saber Libras?

Planeje com o intérprete, use muitos recursos visuais, legende vídeos e aprenda sinais básicos com a turma. A formação continuada ajuda a ir além disso.

Escrito por

Giovanna Schaurich

Integrante do time de redação da São Luís. Atua na criação de conteúdos abrangentes que cobrem desde a vida universitária até a especialização profissional. Em colaboração com nosso time de especialistas, produz materiais que auxiliam na organização dos estudos e no aproveitamento máximo da jornada acadêmica, independentemente do nível de formação.

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