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Tecnologia e Educação Digital

O excesso de telas na infância chegou à escola: o que todo professor precisa compreender

O excesso de telas na infância chegou à escola
O excesso de telas na infância.

“Professor, parece que eles não conseguem mais prestar atenção.”

Provavelmente você já ouviu essa frase ou até mesmo a pronunciou durante uma conversa com colegas. Nos últimos anos, muitos educadores têm observado mudanças importantes no comportamento dos estudantes. Crianças que se distraem com facilidade, demonstram pouca tolerância à frustração, apresentam dificuldade para concluir atividades e parecem precisar de estímulos constantes para manter o interesse.

É comum que o primeiro pensamento seja atribuir essas mudanças à falta de disciplina ou de interesse pela escola. Entretanto, a realidade é bem mais complexa. Um dos fatores que mais tem chamado a atenção de pesquisadores, profissionais da saúde e educadores é o uso excessivo de telas durante a infância e a adolescência.

Não estamos falando apenas do celular. Tablets, computadores, videogames, televisão e relógios inteligentes fazem parte da rotina de muitas crianças desde os primeiros anos de vida. A tecnologia trouxe inúmeras possibilidades para aprender, comunicar-se e acessar informações. O problema surge quando o tempo diante das telas ocupa o espaço de experiências fundamentais para o desenvolvimento infantil.

O cérebro infantil aprende vivendo experiências

Diferentemente dos adultos, o cérebro da criança ainda está em intenso processo de desenvolvimento. Cada conversa, brincadeira, leitura compartilhada, jogo de regras ou atividade ao ar livre fortalece conexões neurais responsáveis pela atenção, memória, linguagem, controle emocional e resolução de problemas.

Essas habilidades não se desenvolvem apenas por meio da exposição a conteúdos digitais. Elas dependem da interação com outras pessoas, da exploração do ambiente e da vivência de situações reais.

Quando uma criança passa muitas horas consumindo conteúdos rápidos, alternando vídeos curtos, jogos e redes sociais, seu cérebro passa a se acostumar com recompensas imediatas. A espera diminui, a necessidade de esforço é reduzida e a atenção passa a depender de estímulos intensos e constantes.

Ao chegar à escola, ela encontra um contexto completamente diferente. Ler um texto, ouvir uma explicação, resolver um problema matemático ou produzir um desenho exige concentração, persistência e planejamento. É justamente nesse momento que muitos estudantes demonstram dificuldade.

Não significa que aprenderam menos. Significa que estão habituados a um ritmo diferente daquele necessário para a aprendizagem escolar.

O professor não está competindo apenas com um celular

Existe um aspecto que muitas vezes passa despercebido. O professor não disputa a atenção do estudante apenas com um aparelho eletrônico. Ele disputa espaço com plataformas desenvolvidas para manter o usuário conectado pelo maior tempo possível.

Jogos, aplicativos e redes sociais utilizam recursos psicológicos sofisticados para prender a atenção. Sons, animações, recompensas instantâneas, notificações e mudanças rápidas de imagem fazem parte de uma estratégia cuidadosamente planejada para estimular o cérebro continuamente.

Enquanto isso, aprender exige exatamente o contrário.

Aprender demanda silêncio, reflexão, tentativa, erro, revisão e persistência. São processos muito menos imediatos, mas indispensáveis para a construção do conhecimento. Por isso, culpar exclusivamente a criança seria uma análise superficial. Ela está respondendo aos estímulos que recebeu durante anos em seu cotidiano.

O professor não está competindo apenas com um celular
O professor não está competindo apenas com um celular.

Como o excesso de telas aparece na rotina escolar?

Os impactos nem sempre são evidentes, mas costumam aparecer de diferentes formas dentro da sala de aula.

Alguns estudantes demonstram dificuldade para permanecer atentos durante poucos minutos. Outros abandonam atividades antes mesmo de concluí-las ou perguntam constantemente quanto tempo ainda falta para terminar.

Também é comum observar maior impulsividade, dificuldade para esperar a vez de falar, menor interesse por brincadeiras coletivas, baixa tolerância à frustração e redução das interações presenciais.

Outro sinal frequente é a dificuldade para lidar com tarefas que exigem leitura mais extensa, escrita ou resolução de problemas que demandam raciocínio contínuo.

É importante destacar que esses comportamentos não são exclusivos do uso excessivo de telas. Eles também podem estar relacionados a outros fatores, como questões emocionais, transtornos do neurodesenvolvimento, dificuldades de aprendizagem ou alterações familiares. Entretanto, ignorar a influência do ambiente digital seria desconsiderar uma realidade amplamente observada por pesquisadores e profissionais da educação.

A tecnologia não é a vilã

É importante fazer uma distinção que evita muitos equívocos. O problema não é a tecnologia.

Quando utilizada com intencionalidade pedagógica, ela amplia possibilidades de aprendizagem, favorece a inclusão, facilita pesquisas e torna as aulas mais dinâmicas. O desafio surge quando a tela substitui experiências que deveriam acontecer no mundo real.

Um vídeo pode apresentar um experimento científico, mas não substitui a curiosidade despertada quando o estudante manipula materiais.

Um aplicativo pode ensinar letras e números, mas não substitui a riqueza de uma leitura compartilhada entre professor e turma.

Jogos digitais podem desenvolver determinadas habilidades cognitivas, porém não oferecem a mesma oportunidade de negociação, cooperação e resolução de conflitos presente em uma brincadeira coletiva.

A escola não precisa escolher entre tecnologia ou aprendizagem. Ela precisa ensinar os estudantes a utilizarem a tecnologia de forma equilibrada e consciente.

O professor continua sendo insubstituível

Em um mundo cada vez mais digital, a presença do professor tornou-se ainda mais relevante.

Nenhuma plataforma consegue substituir o olhar atento de quem percebe que um estudante está inseguro.

Nenhum algoritmo identifica com sensibilidade quando uma criança precisa de incentivo, acolhimento ou simplesmente de alguém que a escute.

A escola permanece sendo um dos poucos espaços em que as crianças convivem com regras coletivas, aprendem a esperar, compartilham materiais, resolvem conflitos, fazem amizades e desenvolvem habilidades socioemocionais fundamentais para a vida.

Essas experiências não aparecem em aplicativos. Elas acontecem nas relações humanas. E são justamente essas relações que sustentam grande parte da aprendizagem.

A parceria com as famílias faz toda a diferença

Outro papel importante da escola é orientar as famílias.

Isso não significa culpabilizar pais ou responsáveis. Muitas famílias enfrentam jornadas extensas de trabalho, dificuldades financeiras e uma rotina extremamente cansativa. Em diversos momentos, as telas acabam sendo utilizadas como uma alternativa possível para entreter as crianças.

O papel da escola deve ser educativo, nunca punitivo.

Compartilhar informações, promover palestras, dialogar sobre limites saudáveis e incentivar atividades em família pode produzir resultados muito mais positivos do que discursos baseados em culpa.

Pequenas mudanças fazem diferença: criar horários para uso dos dispositivos, evitar telas durante as refeições, priorizar brincadeiras, leitura e momentos de conversa são estratégias simples que fortalecem o desenvolvimento infantil.

O que o professor pode fazer na prática?

Embora o controle do tempo de tela aconteça principalmente em casa, existem estratégias que fortalecem a atenção e a aprendizagem dentro da escola.

Propor atividades que envolvam movimento, investigação, trabalho em grupo e resolução de problemas ajuda a manter os estudantes cognitivamente engajados.

Também é importante variar metodologias, alternar momentos de maior concentração com atividades práticas e valorizar brincadeiras, leitura compartilhada, jogos pedagógicos e experiências concretas.

Outro aspecto fundamental é ensinar autorregulação. A criança precisa aprender que nem toda atividade oferece recompensa imediata e que persistir diante das dificuldades também faz parte do processo de aprender.

Um desafio da educação contemporânea

Talvez nunca tenhamos vivido uma geração com tanto acesso à informação.

Ao mesmo tempo, nunca foi tão necessário ensinar os estudantes a selecionar informações, controlar impulsos, manter a atenção e construir relações saudáveis com a tecnologia.

Informação não é sinônimo de aprendizagem.

Aprender continua exigindo tempo, esforço, diálogo, curiosidade e interação humana.

As telas continuarão fazendo parte da vida das crianças. Isso é inevitável. O desafio da escola não é eliminá-las, mas ensinar quando, como e por que utilizá-las.

No final, permanece uma certeza que nenhuma inovação tecnológica conseguiu modificar: crianças aprendem melhor quando encontram professores que acreditam nelas, planejam experiências significativas e constroem vínculos capazes de despertar o prazer em aprender.

Talvez esse seja o maior papel da escola na era digital. Não competir com as telas, mas oferecer aquilo que elas jamais conseguirão substituir: relações humanas, experiências reais e educação com sentido.

Profº Gustavo Thayllon
Escrito por

Profº Gustavo Thayllon

Gustavo Thayllon França Silva é psicólogo, psicopedagogo, professor, pesquisador e escritor, com trajetória profissional e acadêmica construída na interface entre Psicologia, Psicopedagogia, Educação Especial, inclusão escolar e desenvolvimento humano. Ao longo de sua carreira, tem dedicado sua atuação à compreensão dos processos de aprendizagem, das singularidades do desenvolvimento e dos desafios que atravessam a escolarização de crianças, adolescentes e adultos, especialmente daqueles que demandam atenção educacional e acompanhamento especializado.

Sua formação interdisciplinar constitui uma das marcas de sua trajetória. Graduado em Psicologia, Psicopedagogia e Pedagogia, construiu uma formação voltada à compreensão do sujeito em suas múltiplas dimensões: psíquica, cognitiva, afetiva, social e educacional. É mestre em Educação e Novas Tecnologias e, atualmente, desenvolve estudos em nível de Doutorado em Educação, aprofundando suas investigações sobre autismo, políticas públicas e inclusão escolar. Sua pesquisa de doutorado parte de uma questão central e profundamente presente no cotidiano das escolas — “O que esta criança tem?” — para problematizar os impasses das políticas públicas de inclusão e os modos como a escola compreende e responde às singularidades das crianças autistas.

Sua formação foi ampliada por estudos especializados em áreas como Psicologia Clínica, Neuropsicologia, Psicopatologia, Psicanálise Clínica, Terapia Familiar, Psicomotricidade, Transtorno do Espectro Autista, Análise do Comportamento Aplicada — ABA, Transtornos Mentais, Neurobiologia e Psicofarmacologia, Atendimento Educacional Especializado e Educação Especial e Inclusiva. Essa formação plural sustenta uma atuação que busca estabelecer diálogos entre a clínica, a escola, a família e as políticas de inclusão.

Como escritor, construiu uma produção bibliográfica expressiva, com mais de 30 livros publicados, além de capítulos de livros, artigos científicos e outros materiais acadêmicos. Sua obra percorre diferentes campos do conhecimento, mas possui como um de seus principais eixos a relação entre Psicologia, Psicopedagogia, Neurociências, Educação Especial e desenvolvimento humano.

Entre seus livros destacam-se obras como Psicologia Educacional, Psicologia Relacional, Psicologia Social no Tribunal e na Clínica, Percepção Social, Atitudes e Cognição, Desenvolvimento Humano nas Diversas Faixas Geracionais: Abordagens Psicopedagógicas e Psicológica, Psicanálise Aplicada à Psicopedagogia, Educação e Psicanálise, Fundamentos de Psicopedagogia, Neuropsicopedagogia, Neuropsicopedagogia Clínica, Neurociências e Aprendizagem e Transtornos Funcionais Específicos da Aprendizagem.

No campo da Educação Especial, é autor de obras como Fundamentos da Educação Especial na Perspectiva Inclusiva, Deficiência Visual e Práticas Inclusivas, Práticas e Metodologias Voltadas ao Atendimento Educacional Especializado e à Sala de Recurso Multifuncional, Orientação na Educação Inclusiva, Supervisão na Educação Inclusiva, FTM do Ensino da Pessoa com Deficiências Múltiplas, FTM do Ensino da Pessoa com Altas Habilidades ou Superdotação, Surdez e Educação Física Inclusiva para Pessoas com Deficiência. Também é coautor da obra Ensino da Matemática na Educação Especial: Discussões e Propostas, ampliando sua contribuição para a construção de práticas pedagógicas acessíveis e inclusivas.

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