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Educação

Racismo na escola: o que fazer quando acontece na sua sala de aula?

Professora agachada acolhe e escuta menino negro sentado em banco no corredor da escola, com alunos ao fundo.

Um aluno chama o colega de “macaco” no recreio, a turma ri e alguém olha para você esperando uma reação. O que você faz nos próximos cinco minutos? Na verdade, muitos professores já viveram essa cena e saíram dela com a sensação de que poderiam ter agido melhor. Não por falta de vontade, mas porque a escola raramente tem um caminho combinado para responder ao racismo quando ele acontece.

Aliás, essa lacuna entrou na pauta nacional. No fim de agosto, a Câmara dos Deputados recebeu o Projeto de Lei 3.170/2026, que propõe tornar obrigatório um protocolo antirracista em escolas e instituições de ensino superior, públicas e privadas. O texto ganhou repercussão em setembro e ainda vai passar pelas comissões, mas já levanta uma pergunta prática para quem está em sala: como transformar o combate ao racismo em procedimento, e não em improviso?

Neste artigo, você vai entender o que o projeto propõe, o que a pesquisa mostra sobre os efeitos da discriminação na aprendizagem e como montar, desde já, uma resposta antirracista na sua escola.

O que propõe o protocolo antirracista

O PL 3.170/2026 parte de uma constatação: as escolas costumam tratar casos de racismo como “brincadeira”, “briga de criança” ou assunto que só a família deve resolver. Por isso, o projeto propõe que toda instituição de ensino tenha um fluxo definido para esses episódios, com etapas como:

  • Acolhimento imediato da vítima, antes de qualquer outra providência;
  • Escuta qualificada, sem expor nem revitimizar o estudante;
  • Apuração rápida e imparcial do que aconteceu;
  • Responsabilização pedagógica e administrativa de quem praticou o ato;
  • Comunicação aos órgãos competentes, quando for o caso;
  • Transparência com a comunidade escolar, preservando o sigilo da vítima.

O projeto ainda pode mudar na tramitação. Mesmo assim, a lista funciona como um bom roteiro para qualquer equipe que queira se organizar antes de uma obrigação legal. E vale lembrar: a escola brasileira já tem deveres nessa área desde a Lei 10.639/2003, que incluiu a história e a cultura afro-brasileira no currículo, ampliada depois pela Lei 11.645/2008 para incluir também a temática indígena.

Por que isso importa para a aprendizagem

Às vezes, o racismo na escola é visto como um tema “de valores”, separado do conteúdo. No entanto, a pesquisa mostra que essa separação não existe. Por exemplo, uma meta-análise publicada na revista American Psychologist reuniu 214 estudos, com mais de 91 mil adolescentes, e encontrou uma associação consistente entre perceber-se discriminado por raça ou etnia e uma série de prejuízos.

Os estudantes que relatavam mais discriminação apresentavam mais sintomas depressivos, mais sofrimento psicológico e autoestima mais baixa. Além disso, no campo escolar, tinham menor desempenho acadêmico, menos engajamento e menos motivação para estudar. Também apareciam com mais frequência comportamentos de risco.

Portanto, para o professor, a mensagem é direta: um aluno que sofre racismo na escola tem mais chance de se afastar da aprendizagem. Responder bem a um episódio não é só uma questão de justiça. É também uma forma de proteger a trajetória escolar desse estudante.

Os cinco minutos depois do episódio

Voltando à cena do início: o que fazer na hora? Não existe roteiro perfeito, mas algumas atitudes fazem diferença.

1. Interrompa, sem ironia e sem silêncio

A turma lê o silêncio do adulto como permissão. Em vez disso, nomeie o que aconteceu de forma calma e firme: “O que você disse é racismo, e aqui isso não é aceito”. Ao mesmo tempo, evite transformar o momento em sermão público, que costuma expor ainda mais a vítima.

2. Acolha primeiro quem foi atingido

Antes de cuidar de quem ofendeu, olhe para quem foi ofendido. Em seguida, pergunte como ele está, ofereça um espaço reservado e deixe claro que a culpa não é dele. Frases como “não liga, foi brincadeira” minimizam a dor e ensinam que reclamar não adianta.

3. Registre o que aconteceu

Anote data, horário, local, o que foi dito e quem presenciou. dessa forma, o registro protege o estudante, orienta a gestão e evita que o caso se perca entre conversas de corredor.

4. Leve à coordenação no mesmo dia

O professor não precisa resolver tudo sozinho, e nem deve. Na prátoca, a gestão escolar é quem conduz a conversa com as famílias e decide os encaminhamentos. Se a escola ainda não tem um fluxo definido, esse é o momento de propor a criação dele.

5. Trate o caso também como conteúdo

Depois do acolhimento e dos encaminhamentos, o episódio pode virar ponto de partida para um trabalho com a turma. Não para expor quem estava envolvido, mas para discutir o que é racismo, por que ele machuca e como ele aparece no dia a dia. A mediação de conflitos, quando bem feita, ajuda a evitar exclusões entre os alunos e fortalece o vínculo da turma.

Da resposta ao caso à prática antirracista

Um protocolo bem feito resolve o “depois”. Mas a escola antirracista também trabalha o “antes”, para que os episódios se tornem cada vez mais raros. Para isso, algumas frentes ajudam:

  • Currículo: a história e a cultura afro-brasileira e indígena precisam aparecer ao longo do ano, e não só em novembro. Literatura, ciência, arte e matemática também têm autores, inventores e saberes negros e indígenas.
  • Materiais e representatividade: livros, cartazes e exemplos usados em aula mostram quem a escola considera importante. Por isso, vale revisar quem aparece e em que papel.
  • Linguagem: vale discutir com a turma as expressões racistas naturalizadas no cotidiano, de forma investigativa e sem tom de punição.
  • Formação da equipe: professores, funcionários e gestores precisam falar a mesma língua. Quando só um adulto age, o aluno aprende que depende de “sorte”.
  • Relação com as famílias: combinar regras de convivência no início do ano facilita conversas difíceis quando um caso acontece.
Educadora negra lê livro com protagonista negra para crianças em roda de leitura na biblioteca escolar.

O papel do professor na construção do protocolo

Mesmo que o Congresso aprove o PL 3.170/2026, cada escola terá de traduzir a lei em rotina. E quem conhece a rotina é o professor. Por isso, vale participar ativamente da construção desse fluxo: sugerir como registrar os casos, quem deve ser acionado, como garantir o sigilo da vítima e de que forma o tema entra no projeto político-pedagógico.

Contudo, esse trabalho exige mais do que boa intenção. Ou seja, exige conhecer conceitos como racismo estrutural e institucional, a legislação sobre educação das relações étnico-raciais e estratégias pedagógicas que funcionam com crianças e adolescentes. É uma competência profissional, que todo educador pode e deve aprender.

Em suma, o protocolo antirracista em discussão no Congresso coloca em palavras algo que muitas escolas já sentiam: o racismo não pode depender do improviso de quem estiver por perto. Com acolhimento, registro, encaminhamento e trabalho pedagógico contínuo, a escola protege seus alunos e cumpre o papel de formar cidadãos que respeitam a diferença.

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Perguntas frequentes

O protocolo antirracista já é obrigatório nas escolas?

Ainda não. O PL 3.170/2026 está em análise na Câmara e precisa passar pelas comissões antes de virar lei.

O professor deve chamar a família na hora?

O ideal é acolher o aluno e levar o caso à coordenação, que conduz o contato com as famílias.

Racismo entre crianças pequenas também deve ser tratado?

Sim. Com linguagem adequada à idade, a intervenção precoce ajuda a criança a entender por que a fala machuca.

Qual lei trata do ensino de cultura afro-brasileira?

A Lei 10.639/2003, ampliada pela Lei 11.645/2008, que incluiu também a história e a cultura indígena.

Escrito por

Giovanna Schaurich

Integrante do time de redação da São Luís. Atua na criação de conteúdos abrangentes que cobrem desde a vida universitária até a especialização profissional. Em colaboração com nosso time de especialistas, produz materiais que auxiliam na organização dos estudos e no aproveitamento máximo da jornada acadêmica, independentemente do nível de formação.

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