Quantas páginas tem o PEI do seu aluno? E quantas vezes, na última semana, você consultou esse documento durante a aula?
O Plano Educacional Individualizado existe, está assinado e foi entregue à equipe pedagógica. Mas costuma ficar na pasta, enquanto as decisões do dia são tomadas no improviso. Foi a partir dessa cena, comum em escolas públicas e privadas, que a Prof.ª Anelise Coelho, mestre em Educação, pedagoga e psicopedagoga da rede municipal de Araucária (PR), apresentou o PEI enxuto no aulão Menos culpa, mais estratégia: práticas inclusivas que otimizam sua rotina em sala de aula, da Faculdade São Luís.
Na prática, a proposta é um modelo de PEI de uma página, feito para ficar sobre a mesa e ser atualizado ao longo do período. A seguir, você entende como ele funciona e baixa o arquivo gratuito em PDF.
O que é o PEI enxuto?
O PEI enxuto é uma versão de consulta rápida do plano individualizado. Ou seja, em uma única folha, ele reúne quatro informações: o que o estudante já faz, até três metas para o período, as adaptações mínimas da aula e uma tabela de checagem semanal.
O problema observável
O PEI tradicional costuma reunir códigos de diagnóstico, longas listas do que o aluno ainda não faz e metas amplas, como “alfabetizar” ou “socializar”. São várias folhas. O documento cumpre sua função, mas raramente orienta a aula de segunda-feira.
O professor sabe que o estudante tem um plano, mas não sabe qual é a meta desta semana. Dessa forma, sem meta pequena e visível, o avanço não aparece, e cresce a sensação de que nada funciona.
Portanto o obstáculo não está no aluno. Na verdade, está no formato do documento, que não conversa com o cotidiano da sala.
O que a pesquisa diz
Um estudo comparativo sobre planejamento educacional individualizado, publicado na Revista Brasileira de Educação por pesquisadoras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), analisou a legislação e os modelos de PEI da França, da Itália, dos Estados Unidos e do Brasil. Uma das conclusões é que, no caso brasileiro, a chegada da inclusão escolar não veio acompanhada de mudança real nas práticas de planejamento.
O aluno chegou à classe comum, mas o planejamento continuou pensado para a pasta. Por isso, o PEI enxuto responde a esse ponto ao transformar o plano em uma ferramenta de acompanhamento diário.
Além disso, a Prof.ª Anelise conecta a ideia ao Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA). No aulão, ela mostrou uma versão do UNO em que cada cor tem também um símbolo: quem tem daltonismo passa a jogar, e ninguém perde nada. O PEI enxuto segue a mesma lógica: um formato simples, que serve a todos.
O que tem no modelo
O material é um arquivo em PDF com três páginas:
- Página 1 – Como usar: o que o modelo resolve e os cinco passos de preenchimento.
- Página 2 – PEI enxuto em branco: identificação, nível atual de desempenho, até três metas, adaptações mínimas, tabela de checagem semanal e campos de assinatura.
- Página 3 – Exemplo preenchido: o caso de um estudante do 2º ano, com cinco semanas de registro.
Como montar
- Baixe o PDF e imprima uma cópia da página 2 para cada estudante.
- Guarde a folha junto ao planejamento semanal, em local de consulta rápida.
- Combine com a equipe pedagógica e com o AEE quando a folha será revisada.
No entanto, um cuidado importante: o PEI enxuto não substitui o PEI oficial exigido pela rede. Se você ainda está construindo esse documento, veja como fazer um PEI na prática. Na folha entram objetivos, não o nome do jogo: o recurso fica no planejamento da semana.
Passo a passo para preencher o modelo de PEI
1. Comece pelo que o estudante já faz com autonomia. Para isso, descreva comportamento observável. Por exemplo: “Reconhece letras e numerais até 20” orienta muito mais do que “não acompanha a turma”.
2. Escolha no máximo três metas. Uma acadêmica, uma de autonomia e uma socioemocional. No exemplo do modelo: escrever o próprio nome completo sem apoio visual, permanecer sentado em uma atividade por 15 minutos e pedir ajuda com a fala ou com um cartão, em vez de se desregular.
3. Defina as adaptações mínimas. Registre o que muda, de fato, na sua aula: fragmentar tarefas longas em duas etapas, usar rotina visual na carteira e temporizador nas transições, permitir resposta oral ou com apoio de figuras na avaliação.
4. Registre a evolução toda semana. Uma linha por semana na tabela basta: “copiou do crachá”, “escreveu o primeiro nome sem apoio”, “12 minutos”. O registro curto revela o progresso real.
5. Leia os recuos como informação. No exemplo, a meta de autonomia cai de 15 para 13 minutos na quarta semana. Ainda assim, não é fracasso: é um dado que pede a pergunta sobre o que mudou naquela semana.

Possibilidades pedagógicas
Com mais apoio. No aulão, uma professora perguntou como alfabetizar um estudante com TEA nível 3 de suporte, não verbal, que já consegue permanecer sentado na própria cadeira. A resposta da Prof.ª Anelise foi usar o próprio PEI enxuto: registrar essa conquista e definir como meta acadêmica o reconhecimento do próprio nome, como meta de autonomia 15 minutos sentado e como meta socioemocional a comunicação por cartões. Ou seja, “Alfabetizar” fica como horizonte, não como meta da semana.
Por sua vez, a Prof.ª Franciele, que dividiu o aulão, trouxe outro caminho: partir do interesse do estudante. Para crianças que gostam de miniaturas de carros, uma pista de corrida com os numerais de 0 a 9 vira atividade de reconhecimento de números, depois ampliada para as letras do nome.
Com menos apoio. Para estudantes com TDAH ou com TEA nível 1 de suporte, as metas podem envolver organização do material, conclusão de tarefas em etapas ou participação em atividades em grupo. Em resumo a estrutura é a mesma; muda o tamanho do passo.
💡 A virada de chave
Quando uma meta não sai do lugar, a reação mais comum é insistir ou concluir que o aluno não consegue. Contudo, a Prof.ª Anelise propõe o movimento contrário: dar um passo atrás para dar dois à frente.
Se a meta trava, o problema está no tamanho do degrau, não na criança. Reduza a exigência, traga o tema de que o estudante gosta e avance de novo. Afinal, ritmo diferente do previsto pede ajuste no planejamento, não culpa. E essa tarefa não é só sua: equipe pedagógica, AEE e família fazem parte do mesmo plano.
Para quem é indicado
O PEI enxuto foi pensado principalmente para estudantes com TEA e TDAH, da educação infantil ao 3º ano do ensino fundamental, e pode ser adaptado a outras etapas e necessidades. Também é útil quando há troca de profissional de apoio: com metas claras na folha, ninguém recomeça do zero. Veja como manter a continuidade com alunos com TEA e TDAH quando há rotatividade de profissionais de apoio.
Por fim, o material não é diagnóstico nem laudo. Em vez disso, ele organiza o olhar pedagógico sobre o que o estudante já faz e o que pode conquistar a seguir.
Baixe o modelo de PEI enxuto
👉 Baixe o modelo completo, com folha em branco, exemplo preenchido e guia de preenchimento, e comece a usar na próxima aula.
Perguntas frequentes
O PEI enxuto substitui o PEI oficial da escola?
Não. Ele é uma ferramenta de acompanhamento em sala. O PEI oficial continua sendo o documento exigido pela rede e pela equipe pedagógica.
Preciso de laudo para usar esse modelo de PEI?
Não. O modelo registra comportamentos observáveis e metas pedagógicas, e pode orientar o trabalho com estudantes que ainda estão em avaliação.
Quantas metas devo colocar?
No máximo três por período: uma acadêmica, uma de autonomia e uma socioemocional. Metas pequenas tornam o progresso visível.
Com que frequência devo atualizar?
Uma vez por semana, com uma frase curta por meta. Ao final do período, revise o plano com a equipe e a família.