O que leva uma criança a ir para a escola com medo? A pergunta parece exagerada, mas uma pesquisa divulgada nesta semana mostra que ela faz parte da rotina de muitos estudantes brasileiros. Segundo o levantamento, mesmo nas escolas com melhor clima, cerca de um em cada quatro alunos frequenta as aulas com medo. Além disso, nos anos iniciais e finais do ensino fundamental, a proporção chega perto de um em cada três.
Por trás desses números está um velho conhecido de quem trabalha na educação básica: o bullying na escola. Neste artigo, você vai entender o que a nova pesquisa revelou, o que a ciência já sabe sobre os programas de prevenção que funcionam e o que o professor pode fazer, na prática, para transformar a sala de aula em um lugar seguro.
O que a nova pesquisa sobre bullying e violência revelou
Os dados fazem parte da terceira edição do relatório Saúde Mental & Bem-Estar Escolar, produzido pela Great Place to Study Brasil. O estudo ouviu 89.744 pessoas em todo o país, entre estudantes, educadores e familiares, com respostas coletadas entre 2025 e 2026. Os resultados foram publicados em reportagem do jornal O Tempo em 12 de outubro de 2026.
Entre os principais achados:
- do 4º ao 7º ano, a parcela de alunos que se diz feliz e animada para ir à aula caiu de 79,9% para 50,8%;
- na mesma faixa, os relatos de exposição à violência mais que dobraram, passando de 16,6% para 39%;
- entre os estudantes do 8º ano ao 3º ano do ensino médio, 57% relatam bullying ou violência física frequentes e tratados como algo normal;
- um em cada cinco desses estudantes diz ser alvo direto de agressões;
- 44% das vítimas de bullying não acreditam que a escola vai tomar alguma atitude.
Além disso, outro dado chama atenção: nas escolas com pouca violência, 27% dos alunos dizem frequentar as aulas apenas por obrigação. Por outro lado, nas escolas com violência muito alta, esse número sobe para 60%. Ou seja, o clima escolar afeta diretamente o vínculo do estudante com a aprendizagem.
Quando o aluno não se sente visto
A pesquisa também mostra um problema de vínculo. Segundo o relatório, 40,6% dos estudantes não se sentem valorizados pela escola, e 40,1% acreditam que os professores não se importam com o que eles sentem.
No entanto, esse dado não é uma acusação aos docentes. Na verdade, ele revela uma escola sobrecarregada, com turmas cheias e pouco tempo para conversas individuais. Mas mostra onde está a oportunidade: o aluno que se sente visto tem mais chance de pedir ajuda quando algo dá errado.
A desconfiança das vítimas é o ponto mais delicado. Quando quase metade de quem sofre bullying acredita que nada vai acontecer, a tendência é o silêncio, e é ele que permite que as agressões se repitam.

O professor também está no centro do problema
O levantamento não olhou apenas para os alunos. Entre os educadores, um em cada sete relata sofrimento constante. Além disso, 66,3% afirmam que teriam escolhido outra profissão, e 24,4% apontam o excesso de demandas e o desrespeito à autoridade como principais fontes de desgaste mental.
Isso mostra que saúde mental escolar é um tema coletivo. Afinal, um ambiente marcado por agressões adoece quem aprende e quem ensina. Para muitos docentes, a sobrecarga começa antes mesmo de entrar na sala, como mostrou a pesquisa sobre professores que trabalham em várias escolas. Cuidar do clima da escola é, portanto, também uma forma de cuidar do professor.
O que a ciência diz sobre os programas de prevenção
A boa notícia é que o bullying não é uma fatalidade. Uma metanálise sobre programas de prevenção ao bullying escolar, publicada em 2019 na revista Aggression and Violent Behavior pelos pesquisadores Hannah Gaffney, Maria Ttofi e David Farrington, reuniu 100 avaliações de programas aplicados em diferentes países. A conclusão foi que, em média, essas iniciativas reduziram a prática de bullying em cerca de 19% a 20% e a vitimização em cerca de 15% a 16%.
Nesse sentido, a pesquisa brasileira reforça um ponto que a literatura internacional já conhece bem: o papel de quem assiste. Como resumiu a diretora do levantamento, “se não tem plateia, não tem show”. Por isso, programas que ensinam as testemunhas a não aplaudir, não compartilhar e buscar ajuda reduzem o “prêmio social” que o agressor recebe.
Como o professor pode agir contra o bullying na escola
Algumas atitudes cabem na rotina de qualquer turma:
- Combine regras de convivência com a turma: acordos construídos com os alunos são mais respeitados do que listas impostas;
- Trabalhe com as testemunhas: ensine o que fazer quando alguém presencia uma agressão, como se afastar da roda, acolher o colega e avisar um adulto;
- Leve os alunos para o planejamento: segundo os especialistas ouvidos na reportagem, campanhas criadas pelos próprios estudantes tendem a funcionar melhor;
- Responda sempre: todo relato precisa de retorno, mesmo com a investigação em andamento;
- Observe sinais de sofrimento: isolamento, queda no rendimento, faltas frequentes e mudanças bruscas de comportamento merecem atenção;
- Registre e encaminhe: combine com a coordenação um fluxo claro para os casos mais graves, envolvendo família e rede de proteção.
Vale lembrar que, desde 2024, a intimidação sistemática e sua versão virtual, o cyberbullying, estão tipificadas no Código Penal. A lei não substitui o trabalho pedagógico, mas reforça que o tema exige protocolos claros e uma postura ativa da escola.
O papel da escola como rede de proteção
O professor não precisa e não deve agir sozinho. Pelo contrário, a prevenção funciona melhor quando gestão, coordenação, famílias e serviços de saúde e assistência trabalham juntos. Contudo, a própria pesquisa mostra uma lacuna nesse ponto: mais de 95% das famílias confiam na proposta pedagógica da escola, mas apenas 54,6% concordam totalmente que mantêm diálogo com ela sobre as decisões que envolvem os filhos.
Aproximar as famílias, criar espaços de escuta e investir em práticas restaurativas são caminhos para que o conflito seja tratado antes de virar violência. Por exemplo, rodas de conversa, mediação entre colegas e projetos de educação socioemocional ajudam a construir uma cultura de paz que vai além da punição.
Em suma, a pesquisa divulgada em outubro deixa um recado claro: o medo ainda faz parte da rotina de muitos estudantes, e a confiança na escola precisa ser reconstruída. O caminho passa por adultos preparados para ouvir, intervir e acompanhar cada caso até o fim. Portanto, professores com essa formação fazem diferença real na vida dos alunos e no clima de toda a escola.
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Perguntas frequentes
O que é bullying?
É uma forma de violência intencional e repetitiva, praticada por uma ou mais pessoas contra alguém em posição de desvantagem, por meio de agressões físicas, verbais, psicológicas ou virtuais.
O que a nova pesquisa revelou sobre o bullying nas escolas?
Do 4º ao 7º ano, a exposição à violência subiu de 16,6% para 39%, e 44% das vítimas de bullying não acreditam que a escola vai agir.
Programas de prevenção ao bullying funcionam?
Sim. Uma metanálise publicada em 2019 mostrou que, em média, eles reduzem a prática de bullying em cerca de 20% e a vitimização em cerca de 15%.
A pós em Saúde Mental e Prevenção ao Bullying nas Escolas é para quem?
Para professores, pedagogos, coordenadores, gestores e profissionais da rede de proteção que querem atuar na prevenção da violência e na promoção do bem-estar escolar.