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Educação

Ansiedade matemática: como a Neurociência explica e o que fazer

ansiedade matemática e neurociência

Você já percebeu um aluno que sabe o conteúdo, mas trava na hora da prova? Ou aquele que começa a respirar mais pesado só de ouvir a palavra “Matemática”? Esse fenômeno tem nome: ansiedade matemática. E não é frescura. É uma reação real do cérebro, que pode ser compreendida e, mais importante, superada.

Neste artigo, vamos explorar o que a neurociência já descobriu sobre a ansiedade matemática e as dificuldades de aprendizagem. E, no final, trago propostas práticas que uso em sala de aula para ajudar meus alunos a vencerem esse medo.

Afinal, o que é a ansiedade matemática?

A ansiedade matemática é muito mais do que “não gostar de Matemática”. Trata-se de uma reação emocional negativa específica diante de situações que envolvem números, cálculos ou problemas matemáticos.

Quando um aluno com ansiedade matemática enfrenta uma equação, seu cérebro entra em estado de alerta. Estudos de neuroimagem mostram que a amígdala, região associada ao processamento emocional e ao medo, se ativa intensamente. Ao mesmo tempo, áreas responsáveis pelo raciocínio lógico e pela memória, como o córtex pré-frontal, têm sua atividade reduzida.

O resultado? O cérebro do aluno age como se estivesse diante de um perigo real. O corpo reage com tensão, sudorese e aceleração do coração. E a capacidade de pensar com clareza simplesmente diminui. O aluno não está “desligado” ou “preguiçoso”, está em modo de sobrevivência.

O que a ciência já descobriu sobre isso

Uma revisão sistemática conduzida por Yu (2023), publicada na Frontiers in Psychology, analisou 62 estudos sobre a relação entre ansiedade matemática, dificuldades de aprendizagem e o cérebro. Os achados são reveladores.

Dois tipos de dificuldade

A pesquisa distingue dois tipos principais de dificuldades matemáticas:

Nota importante: além dessas duas condições clínicas, existe uma terceira realidade, muito mais comum nas salas de aula: alunos que simplesmente não tiveram a base matemática bem construída, por lacunas de ensino, métodos excessivamente abstratos ou pela própria ansiedade que bloqueou a consolidação da aprendizagem. Nesses casos, o cérebro não apresenta alteração estrutural; o que falta são as conexões sinápticas que se formam com a prática e a estimulação adequadas. Essa “pseudodificuldade” é altamente reversível com intervenções pedagógicas bem direcionadas e será tema de um próximo artigo.

Um ciclo vicioso

O mais interessante é que ansiedade e dificuldade se retroalimentam. A ansiedade prejudica o desempenho, consumindo recursos da memória de trabalho e da atenção. Por outro lado, alunos com dificuldades tendem a desenvolver mais ansiedade, justamente porque enfrentam mais fracassos. É um ciclo que pode ser quebrado. E é aí que entram as intervenções.

O que funciona na prática

A revisão de Yu (2023) identifica quatro tipos de intervenção que têm mostrado resultados positivos:

  • Treino cognitivo: fortalecer a memória de trabalho, a atenção e o controle inibitório melhora o desempenho matemático.
  • Intervenções psicológicas: terapia cognitivo-comportamental, psicoeducação e treino de relaxamento ajudam a reduzir a ansiedade.
  • Estratégias personalizadas: cada aluno é único, e as intervenções devem considerar o tipo de dificuldade e o nível de ansiedade.
  • Intervenções integradas: a combinação de treino cognitivo com suporte psicológico é a abordagem mais promissora.
intervenções para ansiedade matemática
Intervenções para ansiedade matemática.

Propostas práticas para a sala de aula

Inspirado nos achados da neurociência sobre ansiedade matemática e dificuldades de aprendizagem, separei algumas sugestões práticas para diferentes etapas da educação básica. Todas são de baixo custo e podem ser adaptadas à sua realidade. Nosso foco estará no treino cognitivo.

1. Educação Infantil e Anos Iniciais: o “Cantinho das Quantidades”

Foco: Senso numérico, redução da ansiedade e atenção.

Como aplicar: Crie um espaço na sala com materiais concretos e contáveis: feijões, tampinhas, botões, palitos de picolé e potes transparentes.

Na prática: Em vez de começar com símbolos abstratos, explore quantidades de forma lúdica. Peça que as crianças estimem quantos objetos há em um pote, que comparem conjuntos dizendo “qual tem mais?” e que representem números com os dedos. Brinque de “qual é o maior?” e “quantos faltam?”. A estimativa ativa o sistema de magnitude aproximada, processado no sulco intraparietal, fortalecendo a base do raciocínio matemático. Além disso, ao tornar a atividade uma brincadeira, sem pressão de certo ou errado, reduzimos a ativação da amígdala e diminuímos a associação negativa com números desde cedo.

2. Ensino Fundamental I: o “Diário do Raciocínio”

Foco: Envolvimento ativo, feedback imediato e gestão do erro.

Como aplicar: Distribua cadernos ou folhas para que os alunos registrem como resolveram um problema, não apenas o resultado final.

Na prática: Após cada atividade, peça que escrevam ou desenhem o passo a passo do raciocínio. Depois, promova um momento de correção coletiva: um aluno apresenta sua solução, os colegas apontam o que concordam ou discordam, e o professor dá o feedback final. Quando o erro é explicado em voz alta, ativamos o córtex pré-frontal medial e reduzimos a ansiedade matemática. O erro vira combustível para o aprendizado, e o aluno ativo fixa muito mais o conhecimento. Esse processo de explicar o erro e corrigi-lo fortalece a reconsolidação da memória, sobrescrevendo o traço neural incorreto.

3. Ensino Fundamental II e Ensino Médio: o “Clube da Matemática”

Foco: Consolidação, motivação, trabalho colaborativo e redução da ansiedade.

Como aplicar: Organize sessões semanais de resolução de desafios em grupos, com problemas que exijam criatividade e raciocínio lógico, não apenas aplicação de fórmulas.

Na prática: Cada grupo recebe um problema e tem um tempo para resolvê-lo. Depois, apresenta a solução para a turma. O professor atua como mediador, fazendo perguntas que estimulam o aprofundamento: “Por que você escolheu esse caminho?”, “E se tentássemos de outra forma?”. O trabalho em grupo reduz a pressão individual e, consequentemente, a ansiedade. A repetição espaçada de conceitos, combinada com o engajamento ativo, promove a consolidação do aprendizado. Além disso, ao compartilhar estratégias, os alunos percebem que há múltiplos caminhos para resolver um problema, o que diminui o medo do erro e fortalece a autoconfiança.

Resumo e dica final

A ansiedade matemática não é falta de esforço. É uma resposta real do cérebro, que pode ser compreendida e superada. A neurociência já mapeou suas bases neurais e aponta caminhos para intervenções eficazes. O mais importante é lembrar: o cérebro é plástico. Com o estímulo certo e o apoio adequado, é possível transformar a relação do aluno com a Matemática.

Minha dica para você, professor, é observar seus alunos com atenção. Aquele que trava diante de um problema pode não ter dificuldade com o conteúdo, pode estar lutando contra a própria ansiedade. Ofereça apoio, normalize o erro e crie um ambiente onde todos se sintam seguros para aprender.

Para se aprofundar, leia a revisão de Yu (2023) e busque materiais sobre treino cognitivo aplicado à matemática. Essa referência pode transformar sua prática.

Profª Marina Vargas
Escrito por

Profª Marina Vargas

Marina Vargas é Doutora e Mestre em Métodos Numéricos em Engenharia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com pós-doutorado na mesma instituição, onde também atuou como professora substituta em diversas ocasiões. Sua formação acadêmica inclui Especialização em Educação Matemática e Graduação em Matemática pela Universidade Paranaense (UNIPAR).

Atualmente, além de integrar o corpo docente da UFPR como professora substituta no Departamento de Matemática, atua como mediadora nos aulões da Faculdade São Luís. É também conteudista e professora formadora no curso de Licenciatura em Computação da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e colabora com a Escola de Exatas do Grupo Uninter. Para 2026, está confirmada sua participação em eventos que articulam neurociência e educação, como o workshop na Semana de Contabilidade da UFPR e a palestra de abertura do segundo semestre letivo no curso técnico em Petróleo e Gás. Um convite que carrega um significado especial, pois Marina teve a oportunidade de estar como professora substituta nas turmas de ensino médio técnico em Petróleo e Gás da UFPR em 2022 e novamente em 2025, fechando esse ciclo com a palestra em 2026, que marca seu retorno à sala de aula na educação básica com muito carinho.

Paralelamente, desenvolve materiais educacionais e é revisora técnica para instituições e empresas como IESDE, DTCOM e KROTON, abrangendo conteúdos nas áreas de Exatas, Educação e Tecnologia. Com mais de 28 obras publicadas, incluindo livros sobre Educação Financeira, Neurociência e Aprendizagem da Matemática, Pensamento Computacional, Geometria Analítica, Cálculo Numérico e Teoria dos Jogos, é reconhecida pela produção de materiais didáticos e científicos de qualidade. É proprietária da NUMERICALABS, empresa de consultoria e desenvolvimento de conteúdo educacional para todos os níveis de ensino. Suas áreas de especialização – Educação Matemática, Tecnologia Educacional e Pensamento Computacional – são enriquecidas por abordagens baseadas em neurociência e metodologias ativas, refletindo seu compromisso com a inovação e a qualidade na educação.

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