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Educação Inclusiva

Crise sensorial no autismo não é “birra”: o problema é quando o adulto manda a criança se controlar

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Há uma cena que ainda se repete em muitas escolas, clínicas e até dentro de casa: a criança autista começa a tampar os ouvidos, balançar o corpo, chorar, gritar, tentar fugir, se jogar no chão ou simplesmente se afastar das pessoas. Em poucos segundos, alguém diz: “Ela precisa aprender a se controlar”.

Mas será que é realmente disso que estamos falando?

Quando uma criança apresenta uma crise sensorial, insistir para que ela “se comporte” pode ser justamente o contrário do que ela precisa naquele momento. Antes de pensar em disciplina, precisamos compreender o que está acontecendo. Uma crise sensorial pode ocorrer quando a quantidade ou a intensidade dos estímulos do ambiente ultrapassa a capacidade de a pessoa processá-los e regulá-los naquele momento.

Barulho, luz, cheiro, toque, movimento, aglomeração, excesso de informações, mudanças inesperadas na rotina e até a combinação de vários estímulos aparentemente comuns podem se tornar difíceis de suportar. Para quem está de fora, pode parecer exagero. Para quem está vivendo a situação, pode ser uma experiência de intenso desconforto.

E aqui está uma das maiores dificuldades: o adulto enxerga o comportamento; a criança está vivendo a experiência sensorial.

Quando a escola interpreta sobrecarga como desobediência

Imagine uma sala de aula com 30 alunos, cadeiras arrastando, crianças conversando, professor explicando uma atividade, ventilador ligado, luz fluorescente, materiais sobre as mesas e uma proposta que exige atenção e permanência por determinado tempo.

Para muitos estudantes, isso faz parte da rotina. Para alguns estudantes autistas, dependendo de suas características individuais e do contexto daquele dia, a combinação desses estímulos pode ser excessiva.

A criança pode começar a demonstrar sinais de desconforto antes mesmo de uma crise mais intensa. Pode mudar o olhar, colocar as mãos nos ouvidos, aumentar os movimentos repetitivos, ficar mais agitada, tentar sair do ambiente, reduzir a comunicação ou buscar um espaço mais silencioso.

Esses sinais não deveriam ser vistos apenas como comportamentos inadequados.

Eles podem ser informações importantes sobre o estado de regulação da criança.

O problema é que muitas vezes esperamos a crise acontecer para começar a agir. Quando a criança já está gritando ou chorando, queremos descobrir o que fazer. Mas talvez a pergunta mais importante seja outra: o que estava acontecendo antes?

A crise não começa quando a criança grita

Crise sensorial no autismo em escala
Crise sensorial no Autismo em escala.

Uma das mudanças mais importantes no manejo das crises sensoriais é aprender a observar o que acontece antes delas.

Existe um antecedente? O ambiente estava muito barulhento? Houve uma mudança de atividade? A criança foi tocada sem aviso? Houve uma espera prolongada? O recreio estava muito movimentado? A sala estava cheia? A atividade exigia uma habilidade que naquele momento estava acima das possibilidades da criança?

Não existe uma explicação única para toda crise no autismo. Nem toda crise é necessariamente sensorial, e diferentes fatores podem estar envolvidos. Por isso, é perigoso criar uma receita universal. O que funciona para uma criança pode não funcionar para outra.

Uma criança pode se beneficiar de um espaço mais silencioso. Outra pode precisar de movimento. Uma pode buscar pressão corporal; outra pode rejeitar qualquer toque. Uma pode tolerar determinados sons e apresentar grande desconforto diante de outros. Por isso, manejo não é adivinhação. É observação, registro, conhecimento da criança e planejamento individualizado.

Durante a crise: menos discurso, mais segurança

Para que o manejo não dependa apenas da reação do adulto diante da crise, é importante organizar previamente o que observar, o que fazer e o que evitar em cada etapa. O quadro a seguir apresenta um roteiro prático, que deve ser adaptado às necessidades individuais de cada pessoa.

Crise sensorial no autismo e o protocolo de manejo.
Crise sensorial no Autismo e o protocolo de manejo.

Manejar uma crise sensorial não é tentar controlar a criança, mas compreender seus sinais, reduzir as barreiras do ambiente e oferecer segurança para que ela possa recuperar sua regulação.

Durante uma crise intensa, um dos erros mais comuns é falar demais.

“Olha para mim.” “Para de chorar.” “Você precisa se acalmar.” “Se continuar assim, vai perder o recreio.” “Você já é grande.” “Todo mundo está olhando.”

Essas frases podem aumentar ainda mais a pressão sobre a criança.

Durante uma situação de intensa desregulação, talvez ela não consiga processar uma sequência de instruções, explicações ou cobranças da mesma maneira que faria em um momento de tranquilidade.

O adulto precisa reduzir estímulos desnecessários, proteger a criança e as demais pessoas, manter uma postura calma e utilizar uma comunicação objetiva e compatível com aquilo que a criança consegue compreender naquele momento.

Se possível, deve-se diminuir ruídos, afastar pessoas que não precisam estar próximas, reduzir demandas e permitir que a criança tenha acesso a um espaço previamente planejado para recuperação. Isso não significa “deixar a criança fazer tudo”. Significa reconhecer que ensinar e intervir durante uma crise são coisas diferentes. A crise não é, em geral, o melhor momento para ensinar uma nova habilidade.

O espaço de regulação não pode virar um castigo

Outro cuidado importante é com o chamado “cantinho da calma”. Criar um espaço de menor estímulo pode ser uma excelente estratégia, mas ele não deve funcionar como uma sala de isolamento ou punição. Se a criança aprende que aquele espaço significa “você fez algo errado”, a proposta perde completamente o sentido.

O espaço precisa ser apresentado previamente, quando a criança está bem. Ela deve aprender como utilizá-lo e, sempre que possível, participar da construção das estratégias que funcionam para ela.

Pode haver redução de estímulos visuais e sonoros, recursos de comunicação, objetos de interesse ou outros elementos definidos de acordo com as necessidades individuais.

Na clínica, o cuidado também precisa ser individualizado

Na clínica, o princípio não deveria ser diferente. O profissional precisa compreender que o comportamento apresentado durante uma crise é apenas uma parte da história. É necessário investigar os antecedentes, os estímulos envolvidos, as respostas da criança e as consequências que podem estar mantendo ou agravando determinadas situações.

Isso exige avaliação cuidadosa e, quando necessário, trabalho articulado entre diferentes profissionais. Também é importante evitar interpretações simplistas. Nem toda agitação é uma crise sensorial. Nem todo movimento repetitivo indica sofrimento. Nem toda recusa de uma atividade representa oposição. Da mesma forma, nem todo comportamento desafiador pode ser explicado pelo autismo.

O que a escola pode fazer antes da próxima crise?

Talvez uma das estratégias mais eficientes seja parar de pensar apenas em “como conter” e começar a pensar em como prevenir.

A escola pode observar quais situações antecedem as crises e registrar padrões. Pode organizar momentos de menor estímulo, antecipar mudanças na rotina, utilizar recursos visuais, oferecer escolhas possíveis, dividir atividades muito longas em etapas menores e combinar previamente estratégias de saída ou pausa.

Também pode orientar a equipe para que todos saibam o que fazer. Não adianta o professor conhecer a estratégia se, no momento da crise, outro profissional chega e começa a dar ordens, chamar atenção da criança ou aumentar a quantidade de estímulos.

Uma boa estratégia precisa ser conhecida pela equipe, e não apenas por uma pessoa.

Além disso, a família deve ser ouvida. Afinal, muitas vezes os responsáveis já conhecem sinais que antecedem uma crise e sabem quais estratégias costumam ajudar.

Precisamos parar de perguntar “como fazer essa criança obedecer?”

Essa talvez seja a mudança de perspectiva mais importante.

Quando uma criança autista entra em crise, a pergunta não deveria ser imediatamente: “Como faço para ela parar?”

Precisamos perguntar:

  1. O que essa criança está tentando comunicar?
  2. O que aconteceu antes da crise?
  3. Quais estímulos podem ter contribuído?
  4. O ambiente pode ser modificado?
  5. A demanda pode ser ajustada?
  6. Como podemos ensinar estratégias de autorregulação quando ela estiver tranquila?

Essas perguntas não significam retirar limites. Pelo contrário. Significam construir intervenções mais inteligentes, previsíveis e respeitosas. A inclusão não acontece quando colocamos a criança dentro da sala e esperamos que ela se adapte sozinha a tudo que acontece ali.

Inclusão acontece quando também temos disposição para modificar o ambiente, rever nossas expectativas e compreender que comportamento é comunicação, especialmente quando a comunicação verbal não dá conta de expressar aquilo que está acontecendo.

Ensinar autorregulação não significa ensinar a criança a “se comportar” para caber na escola. Significa ajudá-la, gradualmente, a reconhecer o que sente, identificar suas necessidades e encontrar formas possíveis de lidar com aquilo que a desorganiza.

E esse ensino não começa no momento da crise. Ele começa antes: quando a criança está tranquila, quando há vínculo, previsibilidade, segurança e oportunidades para aprender estratégias que poderá utilizar posteriormente.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas “como fazer essa criança se autorregular?”, mas também: “o que nós, enquanto escola, podemos fazer para que ela precise se desorganizar menos?”

Uma escola verdadeiramente inclusiva não espera que todos os estudantes respondam da mesma maneira aos mesmos estímulos. Ela observa, escuta, adapta, antecipa e cria condições para que diferentes formas de aprender, comunicar e participar sejam possíveis.

No final, inclusão não é fazer a criança suportar tudo aquilo que a escola oferece. É construir, junto com ela, uma escola em que ela também possa pertencer, participar, aprender e ser compreendida.

Profº Gustavo Thayllon
Escrito por

Profº Gustavo Thayllon

Gustavo Thayllon França Silva é psicólogo, psicopedagogo, professor, pesquisador e escritor, com trajetória profissional e acadêmica construída na interface entre Psicologia, Psicopedagogia, Educação Especial, inclusão escolar e desenvolvimento humano. Ao longo de sua carreira, tem dedicado sua atuação à compreensão dos processos de aprendizagem, das singularidades do desenvolvimento e dos desafios que atravessam a escolarização de crianças, adolescentes e adultos, especialmente daqueles que demandam atenção educacional e acompanhamento especializado.

Sua formação interdisciplinar constitui uma das marcas de sua trajetória. Graduado em Psicologia, Psicopedagogia e Pedagogia, construiu uma formação voltada à compreensão do sujeito em suas múltiplas dimensões: psíquica, cognitiva, afetiva, social e educacional. É mestre em Educação e Novas Tecnologias e, atualmente, desenvolve estudos em nível de Doutorado em Educação, aprofundando suas investigações sobre autismo, políticas públicas e inclusão escolar. Sua pesquisa de doutorado parte de uma questão central e profundamente presente no cotidiano das escolas — “O que esta criança tem?” — para problematizar os impasses das políticas públicas de inclusão e os modos como a escola compreende e responde às singularidades das crianças autistas.

Sua formação foi ampliada por estudos especializados em áreas como Psicologia Clínica, Neuropsicologia, Psicopatologia, Psicanálise Clínica, Terapia Familiar, Psicomotricidade, Transtorno do Espectro Autista, Análise do Comportamento Aplicada — ABA, Transtornos Mentais, Neurobiologia e Psicofarmacologia, Atendimento Educacional Especializado e Educação Especial e Inclusiva. Essa formação plural sustenta uma atuação que busca estabelecer diálogos entre a clínica, a escola, a família e as políticas de inclusão.

Como escritor, construiu uma produção bibliográfica expressiva, com mais de 30 livros publicados, além de capítulos de livros, artigos científicos e outros materiais acadêmicos. Sua obra percorre diferentes campos do conhecimento, mas possui como um de seus principais eixos a relação entre Psicologia, Psicopedagogia, Neurociências, Educação Especial e desenvolvimento humano.

Entre seus livros destacam-se obras como Psicologia Educacional, Psicologia Relacional, Psicologia Social no Tribunal e na Clínica, Percepção Social, Atitudes e Cognição, Desenvolvimento Humano nas Diversas Faixas Geracionais: Abordagens Psicopedagógicas e Psicológica, Psicanálise Aplicada à Psicopedagogia, Educação e Psicanálise, Fundamentos de Psicopedagogia, Neuropsicopedagogia, Neuropsicopedagogia Clínica, Neurociências e Aprendizagem e Transtornos Funcionais Específicos da Aprendizagem.

No campo da Educação Especial, é autor de obras como Fundamentos da Educação Especial na Perspectiva Inclusiva, Deficiência Visual e Práticas Inclusivas, Práticas e Metodologias Voltadas ao Atendimento Educacional Especializado e à Sala de Recurso Multifuncional, Orientação na Educação Inclusiva, Supervisão na Educação Inclusiva, FTM do Ensino da Pessoa com Deficiências Múltiplas, FTM do Ensino da Pessoa com Altas Habilidades ou Superdotação, Surdez e Educação Física Inclusiva para Pessoas com Deficiência. Também é coautor da obra Ensino da Matemática na Educação Especial: Discussões e Propostas, ampliando sua contribuição para a construção de práticas pedagógicas acessíveis e inclusivas.

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