Você já travou ao ter que usar a crase? Hoje vamos nos ater às regras desse acento que sempre gera confusão na escrita.
A crase (`) serve para evitar a repetição da letra “a” nas situações em que precisamos utilizar o artigo definido a, ou os pronomes aquela, aquele e aquilo, junto com a preposição a.
- Vamos à praia? → Vamos para a praia? Para é a preposição e a o artigo definido feminino. A junção dos dois forma a crase.
- Devo tudo àquela pessoa que me ajudou. → Devo tudo a aquela pessoa.
Quando usar a crase
1. Antes de palavras femininas
Exemplo: Vou à padaria (a + a).
A crase serve para evitar que se escreva a a (vou a a padaria), porque quem vai, vai a algum lugar. E como “padaria” é uma palavra feminina, antes dela colocamos um “a” = a padaria.
Agora, repare: Vou a o cabeleireiro = Vou ao cabeleireiro (a + o).
Mais exemplos:
- Muito açúcar faz mal à saúde.
- Refiro-me à morena.
- Vou à praça e já volto.
2. Na indicação de horas
Exemplos:
- A aula começa às 8h.
- Ela trabalha das 9h às 18h.
- A consulta é às 14h.
Usamos crase quando se indica um horário, como nos exemplos acima.
No entanto, quando falamos em horas contadas, não usamos crase. Por exemplo: As duas horas de aula pareciam não ter fim.
A crase também não é usada se antes das horas estiverem as preposições após, desde, entre, para. Por exemplo: Venha após as 14h.
3. Nas locuções adverbiais, prepositivas e conjuntivas femininas
Exemplos:
- Falaremos à noite.
- Às custas dela, ficou de castigo.
- Chorava de rir à medida que falava.

4. Antes da expressão “à moda de”, mesmo quando ela esteja subentendida
Exemplos:
- Fez um gol à Pelé. (Fez um gol à moda de Pelé.)
- Gosta de poemas à Drummond. (Gosta de poemas à moda de Drummond.)
- Veste-se à Chanel. (Veste-se à moda de Chanel.)
Usamos crase na expressão “à moda de”, mesmo quando ela esteja subentendida na frase.
Quando é proibido usar crase
Pois bem, se há motivos para usar a crase, também há motivos para não a usar. Evidentemente, se o termo regido não admitir a anteposição do artigo feminino “a” (s), não haverá crase. Veja os principais casos em que a crase NÃO ocorre:
1. Diante de substantivos masculinos
- Andamos a cavalo.
- Fomos a pé.
- Passou a camisa a ferro.
- Fazer o exercício a lápis.
- Compramos os móveis a prazo.
- Assistimos a espetáculos magníficos.
2. Diante de verbos no infinitivo
- A criança começou a falar.
- Ela não tem nada a dizer.
- Estavam a correr pelo parque.
- Estou disposto a ajudar.
- Continuamos a observar as plantas.
- Voltamos a contemplar o céu.
Obs.: como os verbos não admitem artigos, constatamos que o “a” dos exemplos acima é apenas preposição, logo não ocorrerá crase.
3. Diante da maioria dos pronomes e das expressões de tratamento
Com exceção das formas senhora, senhorita e dona:
- Diga a ela que não estarei em casa amanhã.
- Entreguei a todos os documentos necessários.
- Ele fez referência a Vossa Excelência no discurso de ontem.
- Peço a Vossa Senhoria que aguarde alguns minutos.
- Mostrarei a vocês nossas propostas de trabalho.
- Quero informar a algumas pessoas o que está acontecendo.
- Isso não interessa a nenhum de nós.
- Aonde você pretende ir a esta hora?
- Agradeci a ele, a quem tudo devo.
Os poucos casos em que ocorre crase diante dos pronomes podem ser identificados pelo método explicado anteriormente. Troque a palavra feminina por uma masculina; caso na nova construção surgir a forma ao, ocorrerá crase. Por exemplo:
- Refiro-me à mesma pessoa. (Refiro-me ao mesmo indivíduo.)
- Informei o ocorrido à senhora. (Informei o ocorrido ao senhor.)
- Peça à própria Cláudia para sair mais cedo. (Peça ao próprio Cláudio para sair mais cedo.)
4. Diante de numerais cardinais
- Chegou a duzentos o número de feridos.
- Daqui a uma semana começa o campeonato.
Demais regras
1. Crase diante de nomes de lugar
Para saber se um nome de lugar admite ou não a anteposição do artigo feminino “a”, deve-se substituir o termo regente por um verbo que peça a preposição “de” ou “em”. A ocorrência da contração “da” ou “na” prova que esse nome de lugar aceita o artigo e, por isso, haverá crase. Por exemplo:
- Vou à França. (Vim da França. Estou na França.)
- Cheguei à Grécia. (Vim da Grécia. Estou na Grécia.)
- Retornarei à Itália. (Vim da Itália. Estou na Itália.)
- Vou a Porto Alegre. (Vim de Porto Alegre. Estou em Porto Alegre.)
- Cheguei a Pernambuco. (Vim de Pernambuco. Estou em Pernambuco.)
- Retornarei a São Paulo. (Vim de São Paulo. Estou em São Paulo.)
ATENÇÃO: quando o nome de lugar estiver especificado, ocorrerá crase. Veja:
Retornarei à São Paulo dos bandeirantes. Irei à Salvador de Jorge Amado.
2. Crase com os pronomes relativos “a qual”, “as quais”
A ocorrência da crase com os pronomes relativos a qual e as quais depende do verbo. Se o verbo que rege esses pronomes exigir a preposição “a”, haverá crase.
É possível detectar a ocorrência da crase nesses casos utilizando a substituição do termo regido feminino por um termo regido masculino. Por exemplo:
- A igreja à qual me refiro fica no centro da cidade.
- O monumento ao qual me refiro fica no centro da cidade.
Caso surja a forma “ao” com a troca do termo, ocorrerá a crase.
Veja outros exemplos:
- São normas às quais todos os alunos devem obedecer.
- Esta foi a conclusão à qual ele chegou.
- Várias alunas às quais ele fez perguntas não souberam responder nenhuma das questões.
- A sessão à qual assisti estava vazia.
Pegou as regrinhas? Sempre demonstre ao seu estudante as trocas que podem ser feitas e assim ele conseguirá compreender se usa ou não o acento grave, ou seja, a crase.