Você já ouviu a frase “Ah, na creche elas só cuidam das crianças”?
Aposto que sim! E aposto também que essa afirmação entristece o seu coração de professora, não é mesmo? Afinal, quem vive o dia a dia da Educação Infantil sabe muito bem que cuidar e educar são processos indissociáveis.
A professora de creche é uma profissional altamente qualificada, que planeja, observa e medeia as primeiras interações do ser humano com o mundo fora do núcleo familiar. Mas como garantir que o nosso trabalho vá muito além do assistencialismo e ganhe o respeito científico e pedagógico que merece?
A resposta está na nossa intencionalidade, na fundamentação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI)!
O que dizem as DCNEI sobre o trabalho da professora da etapa Creche?
Para dar embasamento e credibilidade ao seu trabalho — seja na reunião de pais ou no planejamento pedagógico —, é fundamental conhecer o documento oficial que rege a nossa prática. De acordo com a Resolução CNE/CEB nº 5/2009, que fixa as DCNEI, a Educação Infantil tem características próprias que precisam guiar a postura da professora.
As diretrizes estabelecem que a proposta pedagógica das creches deve ter como eixos estruturantes as interações e as brincadeiras. São esses dois pilares que garantem às crianças os direitos fundamentais de conviver, brincar, participar, explorar, expressar-se e conhecer-se.
A BNCC e a organização do trabalho pedagógico na Creche
Além das diretrizes nacionais, a implantação da Base Nacional Comum Curricular na Educação Infantil veio consolidar a creche como espaço de aprendizagens intencionais. A BNCC organiza os objetivos em Campos de Experiências, valorizando o saber prático e relacional do bebê.
Na creche, o planejamento da professora transita continuamente pelos cinco campos de experiências:
- O eu, o outro e o nós: focado na construção da identidade, da autonomia, da empatia e na criação de vínculos com os pares e adultos.
- Corpo, gestos e movimentos: voltado para o conhecimento do próprio corpo, exploração do espaço e desenvolvimento sensorial e motor.
- Traços, sons, cores e formas: que amplia a sensibilidade estética, a criatividade e o contato com manifestações artísticas e musicais.
- Escuta, fala, pensamento e imaginação: essencial para o desenvolvimento do repertório verbal, escuta atenta e imaginação.
- Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações: promove a curiosidade científica e a exploração do mundo físico e natural.
A intencionalidade pedagógica da professora da creche consiste em estruturar ambientes ricamente preparados para que esses campos sejam vivenciados diariamente por meio das propostas brincantes.
Cuidar, educar e desenvolver a linguagem
Já sabemos que cuidar e educar são ações indissociáveis na Educação Infantil. Assim, quando a professora conversa com o bebê enquanto troca sua fralda, dá o banho ou organiza a hora do sono, ela está praticando educação afetiva e desenvolvimento linguístico.
Para produzir e construir a sua própria linguagem, a criança precisa ouvir o adulto. A aquisição da fala e a ampliação do repertório infantil dependem diretamente da riqueza do repertório verbal e sonoro ao qual o bebê é exposto.
Durante os cuidados diários, quando a professora olha nos olhos, nomeia as partes do corpo, canta uma cantiga ou lê uma história, ela está oferecendo para o cérebro da criança as estruturas para o desenvolvimento cognitivo e emocional.

O desafio do dia a dia na Creche
Todos os dias o bebê ou a criança bem pequena precisam ser acolhidas na chegada à Creche. Neste momento, a figura da professora torna-se sua “base segura” (lembrando da teoria do apego de John Bowlby e dos conceitos de inteligência emocional de Daniel Goleman). O ambiente da creche exige uma transição suave entre o espaço familiar e o institucional diariamente.
A chegada na Creche com choro não é “birra” — é a forma como ela comunica sua insegurança. Nestes momentos, a postura empática da professora, combinada com a sua voz acolhedora ao falar, cantar e ler, é o elemento que traz conforto, previsibilidade e estabilidade emocional para a criança e para a família.
A importância da documentação pedagógica
Como comprovar a ciência e a intencionalidade presentes na rotina da Creche? A resposta é: por meio da documentação pedagógica.
Registrar a rotina por meio de diários de bordo, fotografias, filmagens e relatórios de observação transforma os momentos cotidianos em evidências de aprendizagem. E de ciência! A documentação permite que a professora avalie a própria prática, apresente o desenvolvimento dos bebês para as famílias e comprove o valor científico da Educação Infantil.
Proposta prática na sala de referência: “O cesto musical e a Hora do conto afetivo”
Para transformar as diretrizes das DCNEI, os campos de experiências da BNCC, o incentivo à linguagem e a inteligência emocional em prática, confira esta sugestão de proposta pedagógica voltada à ampliação de repertório dos bebês e crianças bem pequenas (0 a 3 anos):
Passo a passo:
1. Acolhimento com o canto e a fala:
Receba as crianças com uma proposta no chão. Apresente um “cesto musical” contendo objetos que representem cantigas populares (por exemplo: um sapinho de pelúcia, uma borboleta de tecido, um peixe de madeira). A depender da idade das crianças, pegue um objeto ou deixe que cada criança tire um da caixa. A professora, então, canta a cantiga correspondente ao objeto olhando e gesticulando para os pequenos, convidando-os a participar, usando entonação afetuosa. Isso amplia o repertório verbal, musical e ajuda na calibração da atenção e regulação emocional.
2. Leitura compartilhada e afetiva:
Apresente um livro infantil com páginas resistentes (cartonado, de tecido ou materiais alternativos), com rimas e ilustrações grandes. Faça a leitura do texto apontando para as imagens, mudando a entonação da voz e fazendo as pausas necessárias para que os bebês possam balbuciar, apontar e interagir com as páginas. Mostrar como a escrita se relaciona com a fala é o primeiro passo para o letramento.
3. Mediação e conversa intencional:
Enquanto as crianças manuseiam os livros e objetos musicais, a professora deve conversar constantemente com elas: “Você viu o sapo da história, João? Ele mora lá na lagoa!”. Nomeie sentimentos e ações, estimulando que a criança tente repetir sons, palavras e gestos, construindo assim o seu repertório linguístico em um ambiente de afeto e segurança.
4. Registro e documentação pedagógica:
Anote os avanços na comunicação verbal e não verbal de cada criança: quais sons emitem, como reagem ao canto do adulto, qual o nível de atenção durante a leitura do livro e como interagem com os colegas durante as cantigas. Fotografar esse momento enriquece o portfólio individual e fortalece a parceria com as famílias no retorno às aulas.