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Educação Infantil

Como se constrói o pensamento numérico na infância?

Criança construindo pensamento numérico brincando
Pensamento numérico na infância.

Você já se perguntou como se constrói o pensamento numérico na infância?

Quando uma criança pergunta “quantos copos precisamos?”, separa brinquedos para cada colega ou percebe que ainda falta uma peça para completar um jogo, ela já está explorando ideias matemáticas.

Essas experiências cotidianas mostram que o pensamento numérico começa antes de a criança escrever algarismos ou resolver contas no papel. Ele se desenvolve gradualmente, por meio de interações, brincadeiras, problemas e oportunidades de observar, comparar e explicar quantidades.

Compreender esse percurso ajuda famílias e educadores a planejar experiências que façam sentido em cada etapa.

Na Educação Infantil, o foco está em explorar relações e quantidades em contextos significativos. Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, essas experiências são retomadas e sistematizadas, com o avanço para registros numéricos, diferentes estratégias de cálculo e compreensão do sistema de numeração.

A aprendizagem, porém, não acontece em uma sequência rígida igual para todas as crianças.

Afinal, o que é pensamento numérico?

Pensamento numérico é a capacidade de compreender e usar números para interpretar situações.

Inclui perceber quantidades, contar, comparar, ordenar, estimar, reconhecer relações entre números, compor e decompor quantidades e escolher estratégias para resolver problemas. Não se resume a recitar a sequência “um, dois, três” nem a memorizar resultados de operações.

Uma criança pode saber contar até vinte e ainda não compreender que o último número dito representa quantos objetos há no conjunto. Também pode reconhecer o algarismo 5, mas não relacioná-lo com cinco elementos.

Por isso, é importante observar não apenas se a criança chega à resposta correta, mas como ela pensa: aponta cada objeto ao contar? Repete ou pula números? Confere a quantidade? Consegue explicar como descobriu?

O pensamento numérico inclui diferentes conhecimentos que se desenvolvem em relação. A criança aprende a comparar coleções, estabelecer correspondência entre objetos e palavras numéricas, compreender a ordem dos números e perceber que uma quantidade pode ser organizada de mais de uma maneira.

Por exemplo, cinco peças podem ser vistas como quatro e uma, três e duas, ou cinco unidades. Essas relações servirão de apoio para a adição, a subtração e outros conceitos posteriores.

As primeiras experiências na Educação Infantil

Na Educação Infantil, as crianças entram em contato com números em situações reais: ao distribuir materiais, marcar a presença, organizar brinquedos, acompanhar uma receita, comparar alturas ou observar quantos dias faltam para um passeio.

O campo de experiências “Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações”, previsto na Base Nacional Comum Curricular, inclui propostas para explorar essas noções em articulação com as vivências infantis. A BNCC também orienta que, nos anos iniciais do Ensino Fundamental, essas experiências sejam retomadas e sistematizadas.

Brincadeiras de esconde-esconde, trilhas, amarelinha, jogos de cartas e construções com blocos podem favorecer a contagem, a comparação e a antecipação de resultados. Para que a experiência se torne uma oportunidade de aprendizagem, a mediação do adulto importa.

Perguntas como:

  • “quantas peças faltam?”,
  • “como podemos conferir?” ou
  • “há outro jeito de separar esse grupo?”

incentivam a criança a pensar e comunicar estratégias, sem transformar todo momento de brincadeira em uma sequência de exercícios.

Crianças em primeiras experiências na Educação Infantil
Primeiras experiências na Educação Infantil.

Contar objetos também envolve mais do que conhecer a ordem das palavras numéricas. A criança precisa relacionar cada palavra a um elemento, manter uma sequência estável e compreender que a última palavra indica o total contado.

Objetos móveis ajudam nesse processo: a criança pode tocar ou deslocar cada item para evitar contar o mesmo duas vezes ou deixar algum de fora. Com o tempo, consegue contar coleções mesmo sem mover os elementos e passa a usar a contagem para responder a perguntas.

Outra habilidade importante é perceber pequenas quantidades sem contar item por item, como reconhecer rapidamente que há dois ou três pontos em uma carta. Essa percepção pode ser apoiada por padrões visuais em dados, dominós e jogos.

Quando a quantidade aumenta, as crianças também podem agrupá-la: por exemplo, reconhecer seis como três pares. Atividades desse tipo favorecem a percepção de relações entre números e preparam o terreno para composições e cálculos.

A passagem para o Ensino Fundamental

Ao ingressar no Ensino Fundamental, a criança não começa do zero. Ela traz estratégias e conhecimentos construídos em casa, na Educação Infantil e em suas interações com o ambiente.

Cabe à escola conhecer esses saberes e propor desafios que ampliem a compreensão. A sistematização não significa abandonar o jogo e os materiais concretos; significa conectar essas experiências a desenhos, palavras, símbolos e explicações matemáticas.

Uma progressão possível é explorar uma quantidade com objetos, representá-la por desenhos e, depois, relacioná-la ao numeral correspondente.

Por exemplo, diante de oito tampinhas, os estudantes podem formar dois grupos de quatro, quatro pares ou um grupo de cinco e outro de três. Em seguida, podem desenhar essas organizações e registrar 4 + 4 = 8 ou 5 + 3 = 8. O objetivo é que compreendam o que o registro representa, não apenas que copiem uma sentença matemática.

Nos anos iniciais, compreender o sistema de numeração decimal é central. Os algarismos têm valores diferentes conforme a posição que ocupam: em 24, o 2 representa duas dezenas e o 4 representa quatro unidades.

Agrupar e trocar materiais em unidades, dezenas e centenas pode tornar essa organização mais visível. Dinheiro fictício, material dourado, palitos agrupados ou quadros de valor posicional são recursos possíveis, desde que o professor ajude a relacioná-los à escrita numérica.

O cálculo também deve envolver mais de um caminho. Para resolver 8 + 7, uma criança pode:

  • contar todos os elementos;
  • começar no oito e avançar sete passos;
  • decompor o sete em dois e cinco para completar dez;
  • ou lembrar um fato numérico conhecido.

Essas estratégias revelam diferentes níveis de compreensão e podem ser discutidas coletivamente. A BNCC destaca que a aprendizagem matemática nos anos iniciais não deve se limitar aos algoritmos: também envolve cálculo mental, estimativas e decisão sobre qual procedimento usar.

O papel do erro, da conversa e da avaliação

Erros podem informar ao educador quais ideias a criança está usando.

Se um estudante escreve 105 para representar quinze, por exemplo, pode estar tentando registrar as palavras “dez” e “cinco” sem compreender ainda a composição das dezenas. Em vez de apagar rapidamente a resposta e apresentar a regra, o professor pode pedir que explique seu raciocínio e propor novas situações de agrupamento, comparação e registro. Assim, a intervenção parte do pensamento que a criança já demonstra.

A avaliação do pensamento numérico pode acontecer durante as atividades. Observar como o estudante conta, agrupa, compara, estima e explica permite planejar os próximos desafios.

Jogos, conversas, registros espontâneos e resolução de problemas oferecem evidências diferentes das obtidas em uma lista de contas. A avaliação deve ajudar a identificar avanços e necessidades, sem transformar uma dificuldade pontual em rótulo sobre a capacidade da criança.

As oportunidades de aprendizagem também precisam considerar a diversidade da turma. Materiais com diferentes texturas, objetos de tamanho ampliado, cartões com números, instruções orais e visuais, tempo adequado e formas variadas de resposta podem tornar as atividades mais acessíveis.

A National Council of Teachers of Mathematics recomenda que o ensino de Matemática considere os conhecimentos, as experiências e as perspectivas dos estudantes e assegure oportunidades de aprendizagem de qualidade.

Uma construção que continua

O pensamento numérico se constrói quando as crianças têm oportunidades frequentes de usar números para compreender e transformar situações.

Na Educação Infantil, isso acontece em brincadeiras, rotinas e explorações intencionais. No Ensino Fundamental, essas experiências ganham novas representações e maior sistematização, sem perder o vínculo com problemas que façam sentido para os estudantes.

Para saber mais sobre essas etapas de ensino, acesse a pós-graduação em Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental.

Para professores e famílias, um bom ponto de partida é trocar a pergunta “a criança já sabe contar?” por:

  • Como ela organiza essa quantidade?
  • Que estratégia escolheu?
  • Consegue explicar o que fez?
  • Que apoio a ajudaria a avançar?

Essas perguntas tornam visível o raciocínio em desenvolvimento e ajudam a planejar intervenções mais adequadas.

Construir o pensamento numérico não é acelerar a aprendizagem nem antecipar conteúdos formais. É oferecer experiências ricas, escutar as ideias das crianças e ajudá-las a estabelecer relações cada vez mais elaboradas entre quantidades, números e operações.

Quando isso acontece, a Matemática deixa de ser apenas uma coleção de símbolos e respostas e passa a ser uma linguagem para investigar, decidir e compreender o mundo.

Profº Anderson Minosso
Escrito por

Profº Anderson Minosso

Anderson Minosso é professor, pesquisador, escritor e formador de professores, com atuação voltada à Educação Matemática, Educação Especial e Inclusiva, formação docente e inovação pedagógica.

É doutor em Formação Científica, Educacional e Tecnológica pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Atualmente, é pós-doutorando em Educação pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP).

Possui mestrado em Educação Básica pela Universidade Alto Vale do Rio do Peixe (UNIARP), especialização em Metodologia do Ensino de Matemática e Física pelo Centro Universitário Internacional UNINTER, especialização em Educação Especial e Inclusiva pela FAEL e graduação em Matemática – Licenciatura pelo Instituto Federal Catarinense (IFC) – Campus Concórdia e Licenciado em Pedagogia pelo Centro Universitário Internacional UNINTER.

Ao longo de sua trajetória profissional, atuou como professor no Colégio CEM e como Assessor Pedagógico de Matemática no Grupo Positivo, desenvolvendo programas de formação continuada para professores da Educação Básica. Atualmente, é professor do quadro permanente da Prefeitura Municipal de Curitiba (PR) e docente em cursos de graduação e pós-graduação.

É autor de livros destinados à Educação Básica e ao Ensino Superior, produzindo obras que articulam fundamentos teóricos e aplicações práticas para professores, estudantes e pesquisadores. Seus trabalhos concentram-se nas áreas de Educação Matemática, formação de professores, Educação Especial e Inclusiva, currículo, metodologias de ensino e desenvolvimento profissional docente.

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